segunda-feira, 19 de abril de 2010

Aquecer vendas e esfriá-las com a mesma redução de impostos. Dá para entender?


Por José Paulo Kupfer

As relações entre o senso comum e os fenômenos econômicos costumam ser atribuladas. Presente no cotidiano das pessoas, os conceitos econômicos que explicam esses fenômenos nem sempre são intuitivos e, em conseqüência, sua compreensão e seus impactos conduzem a enganos variados. Um exemplo recente é o da redução do IPI para determinados setores da economia.

A medida, adotada, em caráter temporário, com o objetivo de estimular o consumo de bens finais elaborados em cadeias produtivas de ampla disseminação pela economia, foi mais do que um sucesso. No caso dos veículos, por exemplo, a redução do IPI tem sido cantada como a responsável por um recordes de vendas, com um pico histórico no outro mês de vigência, março passado. No caso dos materiais de construção, conforme explicações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a vigência da redução do IPI acaba de ser mais uma vez prorrogada, mas, no caso, para acalmar as vendas e evitar corridas no fim do prazo de vigência do benefício.

A correria às compras, segundo o senso comum, se deu pela oferta de melhores preços, resultantes da redução do IPI. Há uma convicção quase generalizada de que os preços ficaram mais atraentes na proporção da redução do imposto, repassado aos consumidores.

Eis aí um mistério profundo: como alguém pode chegar a uma conclusão dessas se, no Brasil, os impostos estão embutidos nos preços? Se o preço entra em “promoção”, isso se deve ao IPI ou a uma redução de margem? E quem garante que foi feito um repasse automático, na mesma proporção da redução do imposto?

Explicar que a redução do IPI foi – e é – uma jogada de marketing camuflada de ação macroeconômica faz o autor da explicação parecer um marciano falando numa língua ininteligível. Contudo, a redução do imposto não passa disso – uma mãozinha do governo para a flexibilização da margem de comercialização dos produtos beneficiados. Fabricantes e comerciantes, com base na ajuda do governo, podem oferecer “promoções”, jogando com a redução do tributo para, dependendo da demanda no mercado, manter, ampliar ou reduzir menos suas margens.

Trata-se de um ponto de marketing como era, nos idos de 1970, a “virada” da correção monetária, ao fim de cada trimestre. Naquela época, a venda de bens duráveis, de maior valor unitário, como carros e eletrodomésticos, obedecia a um ciclo trimestral com ritmo ditado pela “mudança na correção”. As vendas explodiam no terceiro mês, se agüentavam – com a manutenção dos preços “antigos” em parte do primeiro mês do novo trimestre, em “promoções” do comércio – e desabavam no segundo mês.

Não há nada de errado, é bom deixar bem claro, com a medida de redução do IPI. Nem com seu uso como ponto de marketing. Em momento de crise, reduzir tributos para estimular o consumidor temeroso do que possa vir a acontecer com sua renda e induzi-lo a aproveitar uma vantagem, é um remédio clássico e de efeitos benéficos comprovados. E recorrer a promoções para puxar vendas é mais do legítimo

É só para que não se compre gato por lebre. E para entender o que, de verdade, está acontecendo.

Numa economia na qual a cobrança de impostos sobre bens e serviços não é transparente e o tributo fica escondido no preço, os possíveis efeitos colaterais da medida devem ser ainda mais bem pesados. O exemplo dos materiais de construção, que agora tiveram prorrogados os benefícios do IPI para diluir um aquecimento extra da demanda, é suficientemente eloqüente.

O Brasil é um eterno inventor de situações econômicas inexistentes nos livros-texto, criador de inúmeras jabuticabas econômicas, coisas que só acontecem aqui. Nos tempos dos tabelamentos do Plano Cruzado, meados dos anos 80, convivemos com uma estranhíssima situação na qual os preços dos carros usados eram mais altos do que os preços (tabelados) dos carros novos – e que, naturalmente, sumiram da praça.

Agora, fim da primeira década do século XXI, uma redução de impostos é utilizada tanto para aquecer vendas como para esfriá-las. Não deu para entender? Tudo bem, vamos aproveitar a promoção…

Fonte: O Estado de S.Paulo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Arquivo